segunda-feira, agosto 22, 2005

Morrer por Amor

“Sim, sem amor, o que há-de bom em existir? Para quê continuar a viver? Com que fim? É aqui que encontramos o sentido da nossa vida: ser amados para sempre, até à eternidade, para que, à nossa volta, continuemos até morrer de tanto amar. Sem o amor, que haverá de bom em existir? Sim, feliz de quem morre por amor.”

Irmão Roger na abertura do Concílio dos Jovens em Taizé em 1974

sexta-feira, agosto 19, 2005

Adeus Irmão

Quando fui a primeira vez a Taizé, pensei que não me fosse adaptar àquele sítio que nos vídeos parecia saído dum campo de refugiados numa qualquer parte do mundo subdesenvolvida.

Lembro-me como foi entrar na Igreja da Reconciliação e o meu coração parar para recomeçar a bater tão forte como tivesse chegado a casa… a casa que ele construiu para o Pai.

A primeira vez que estive com ele foram apenas alguns segundos quando me dirigi para receber a sua bênção e foi a única vez que senti as suas mãos na minha cabeça e o Espírito Santo descer como uma torrente de lágrimas.

Várias vezes fui à colina mas sempre fiquei longe dele, deixando-me embrenhar na sua obra mas deixando-o com os outros, porque sempre me contentei em apenas saborear e viver o que ele fazia pela inspiração do Espírito Santo.

Anos depois recebi a graça de viver na sua aldeia durante algum tempo e tive a sorte de partilhar um bocadinho mais da sua vida.

Quando cheguei decido a ficar um mês que se tornou em algo muito mais longo, nessa mesma noite ele teve o último encontro tradicional dos sábados à noite com os peregrinos… a doença mas principalmente o cansaço da idade já não lhe permitiam noitadas.

Durante o tempo que trabalhei na sua “vinha”, vi-o ficar numa cadeira de rodas, voltar a andar, de novo numa cadeira de rodas e de novo a andar… ele era abastecido de Espírito Santo e o melhor é que contagiava os outros com esse combustível divino.

Às vezes ia almoçar a sua casa… já tentaram olhar o sol? Os seus olhos claros eram como o sol que nos trespassava alma com bondade e em busca do melhor que há em todos os nós, obrigando-me sempre a baixar os olhos em consentimento.

Não posso dizer que tive discussões teológicas profundas, a idade e a fala já não lhe permitiam ter grandes dissertações, mas tive algumas das lições mais profundas, rezar em silêncio sentido as suas mãos nas minhas, falar que a trovoada de ontem tinha sido das fortes ou simplesmente acompanhá-lo até ao corredor do seu quarto enquanto falávamos de como estavam bonitas as árvores.

Para mim não foi um fundador ou um gigante do ecumenismo que morreu, foi um avô que sempre conheci fraquinho e de quem soube por outros e por sua voz histórias fantásticas reais mas que parecem saídas dos livros de histórias.Mesmo com esta morte violenta tenho a certeza que o último gesto dele deve ter sido tentar abençoar aquela que o matou… era mais forte do que ele querer partilhar o amor de Deus com todos.

Apesar da tristeza da partida, não consigo evitar sorrir ao imaginá-lo com o Pai depois de uma vida de entrega e de amor a todos sem excepção.

Abençoa-nos agora querido irmão, com as tuas mãos repletas da bondade do Cristo Ressuscitado, intercede por nós junto do Pai ao seu ouvido com a tua voz suave e meiga e pede ao Espírito Santo que nos conceda a graça de sermos inspirados pela tua vida de amor e comunhão.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Do fundo da Igreja

Sempre tive a sensação que os lugares mais confortáveis da Igreja são ou no topo ou no fundo...

Como não sou padre fico-me pelo fundo, num canto, sentado no chão ouvindo as fórmulas e as palavras e acima de tudo tentanto rezar.

Do fundo da Igreja sinto-me anónimo mas ao mesmo tempo em comunidade, criticando mas ou mesmo tempo batendo no peito como o publicano e dizendo baixinho "Senhor, tem misericórdia de mim".

Normalmente é pelo fundo da Igreja que entram as pessoas, os cortejos para as festas litúrgicas mas também onde há mais tentação... de me distrair ou simplesmente de ser o primeiro a sair.

É daqui, entrando num estado de comunhão e embalado por uma ou outra homilia mais sonolenta, que divago pelo que eu gostaria que fosse a Igreja... não a MINHA Igreja mas a de todos nós.

Pelo fundo da Igreja sairam pessoas que nunca mais voltaram mas é também onde o Pai nos espera como na parábola do filho pródigo e nos recebe de braços abertos para a festa.

É bom estar e pensar do fundo da Igreja mas quando for preciso e nos pedirem não me importo de ir mais para o meio... para já fico cá atrás, a olhar, a pensar, a rezar do fundo da Igreja.