terça-feira, outubro 17, 2006

Um aborto de referendo

Confesso que pouco ou nada percebo das discussões que têm envolvido os Portugueses neste meses que antecedem o novo referendo do aborto. Como eu, acredito que mais de 80% da população partilha desta ignorância.

Não consigo perceber a diferença entre um zigoto e um feto. Quando tiver a graça de receber a notícia que vou ser pai, não vou estar preocupado se é um zigoto ou um feto, ou uma amálgama de células ainda em desenvolvimento. Nos emails que irei escrever, estará escrito em letras tamanho 32 e em bold «Vou ser pai! A minha mulher está grávida!». Não conheço ninguém que tenha telefonado a dizer «Estou, Mãe! Tenho um zigoto! Responde a mãe: Olha filho, bebe sete goles de àgua sem respirar que isso passa!» Não, quando se telefona diz-se, «Vais ser avó!».

Sou ainda mais inculto no que concerne a evolução e a formação do zigoto e do feto. Para mim, dentro da barriga da minha mulher vai estar o meu filho.

Para aqueles que sofrem de alguma patologia, deficiência ou esterelidade o problema será sempre o não poder ter filhos e não, o não poder ter zigotos.

Na cultura popular existe o engravidar, existe o dar à luz mas não existe um meio, ou a existir esse meio é, e sempre será o estar grávida de uma criança. Por isso se diz que se está à espera de dar à luz. Não há cá teorias de evolução pré embrionária.

Compreendo no entanto, que haverão situações que conduzam os futuros pais a abortar, caso de deformações contrárias à vida, perigo de vida da mãe, ou violação. Situações essas que creio já estarem contempladas na lei. No entanto todas as outras situações que me possam mostrar sou obrigado a considerar como criminosas.

Claro que é fácil entrar na onda e chamar criminosos e assassinos. Independentemente da veracidade dessas acusações e ao recreminar se simplesmente não apresentando outras soluções, esvazio toda a minha boa vontade, de toda a réstia de caridade cristã que possa existir em mim. Não se pode dizer Não ao Aborto simplesmente porque Não. Ao dizer Não temos que ser consequentes e prevenir as situações que possam levar a esta atitude desesperada. Quantas vezes a vergonha de dizer aos pais que se engravidou conduziu que jovens de namorados tenham que optar entre o repúdio social ou abortar? Quantas vezes a pressão social e religiosa conduz ao aborto de forma a evitar a vergonha de desonrar a família? Não será estranho que a classe social mais abonada, seja aquela que mantém uma máscara de pró-vida e de repressão de políticas de educação sexual condizentes com a sociedade e aquela que ao mesmo tempo pode usufruir do anonimato, do conforto e segurança das clínicas privadas espanholas?


Não se pode simplesmente dizer Não ao Aborto quando continuamos com políticas pouco consistentes de planeamento familiar e educação sexual. Estamos a fechar os olhos à realidade que nos rodeia se mostramos filmes arrepiantes que mostram a violência de um aborto, e não mostramos compreensão e apoio com as mães solteiras. Estamos a ser hipócritas se não investimos na prevenção, na educação e na formação. Será que o dinheiro que vai ser gasto com clínicas e apoios estatais à interrupção do aborto não pode ser utilizado em forma de subsídios para famílias carenciadas? Ou será que famílias numerosas são só as que têm 11 filhos e moram em zonas ricas de Portugal? Não será uma família numerosa um pai divorciado com um emprego precário e com 2 filhos em idade escolar? Será que é honesto da nossa parte dizer Não ao Aborto e condenar alguém que faz uma laqueação de trompas porque têm 3 filhos e dificuldades financeiras ou alguém que usa a pílula porque não está em condições de assumir uma maternidade neste momento?

Sim sou contra ao Aborto. Sou contra o Aborto quando alguém o utiliza como forma de evitar uma gravidez não desejada. Sou contra o Aborto para quem o utiliza de forma criminosa, persistente e recalcitante. Sou contra o Aborto em abortadeiras clandestinas que se preocupam mais em ganhar um dinheiro sujo do que na saúde da mulher. Sou contra o aborto que é a nossa sociedade que é capaz de gastar milhões em programas de televisão como o Big Brother e afins mas não consegue arranjar um rede eficaz de apoio e aconselhamento a jovens em situações de escolha. Assim não é a mulher que aborta que merece 3 anos na cadeia mas somos todos nós...

Mas e o casal de namorados adolescente que na emoção e na influência das hormonas não foi capaz de se controlar e nunca se lhes ensinou que existia o preservativo? De quem é a culpa?

Somos rápidos a condenar mas lentos a prevenir, a educar, a ensinar e acima de tudo a amar e a perdoar. Onde estão as associações cívicas de apoio psicológico à mulher que abortou? Para além da Vinha de Raquel que mesmo conhecendo pouco, admiro e incentivo, quantos mais movimentos ou paróquias apoiam mulheres que passaram por esta situação?


No referendo do aborto o que se vai votar não são as idiotices que os movimentos pro-vida apresentam como argumentos. Não se pode ser contra o aborto e contra a contracepção. Também não se vai votar se se quer que as pessoas façam ou não abortos como certas facções da Igreja querem fazer passar. Tão pouco se vai votar a questão da liberdade de escolha da mulher.

Este referendo é um absurdo, é um aborto de referendo porque as pessoas não sabem o que estão a votar mas porque principalmente a política subjacente é o de tapar buracos e não conduz à resolução do problema que leva uma mulher a abortar.

Neste referendo esta deveria ser a pergunta:

Está disposto a comparticipar dos cofres do estado campanhas de promoção de educação sexual, promoção e formação cívica, subsidiar mães solteiras, distribuir gratuitamente informação sobre os diversos métodos contraceptivos, os comportamentais, os químicos e fisicos e explicar com clareza que o preservativo previne a Sida mas que o sexo é o bem mais precioso que se pode oferecer a alguém?

Se se fizesse isto, que necessidade haveria de votar um referendo sobre o aborto?

No referendo do aborto vou votar Não, porque quero uma política de prevenção e de planeamento familiar responsável.

Em comunhão

quarta-feira, outubro 11, 2006

A Contracepção

Muito se fala da contracepção e que esta é considerada intrinsecamente má pela Hierarquia da Igreja... talvez seja verdade, mas até hoje nunca nenhum padre me disse isso directamente por isso vou continuar a fazer de conta que tudo está bem.

A minha opinião relativamente aos métodos contaceptivos é por demais influenciada pelo meu CPM (Curso de Preparação para o Matrimónio) que fiz no Rodízio em Sintra com os Jesuítas.

Para quem não sabe este tipo de cursos são prática e frequência obrigatória em muitas paróquias para noivos que queiram casar pela Igreja. Recomendo vivamente este curso, que para além de ser bastante curto (um fim-de-semana contra os normais cursos de várias semanas nas paróquias) revelou-se um momento bastante oportuno para reflexão (namoro nas palavras dos organizadores) sobre o passo que se vai dar.

Não se falou apenas de contracepção (foi apenas um ponto entre muitos) e para além de curtas partilhas de especialistas, isto casais, médicos e um padre, houve muito tempo para reflexão e partilha em pequenos grupos.

Voltando ao tema da contracepção, tenho a forte convicção que para diferentes momentos da vida do casal se deverão usar diferentes métodos contraceptivos.
Creio que é concensual que:


- A sexualidade é uma das partes mais importantes na vida de um casal e que deve ser vivida em plenitude e respeito por ambas partes do casal.
Um casal sem vida sexual é pobre quer na partilha do seu amor quer na expressão física desse amor. Existem casais que por doença ou incapacidade estão excluídos do acto sexual. Isto não tem que obrigatoriamente diminuir ou classificar o amor entre os dois como um amor de segunda, mas é justo afirmar que há uma limitação e uma mutilação na vida do casal. Por outro lado a recusa de um dos conjuges na partilha da sexualidade sem motivo físico aparente leva invariavelmente a fracturas conduzindo na grande maioria dos casos à infidelidade, à infelicidade e em último caso ao divórcio. A abstinência por opção, quer para quem use os métodos naturais quer para quem por outros motivos deve ser uma decisão a dois e deverá ser sustentada no amor e no diálogo. O mesmo se aplica à escolha do método contraceptivo a utilizar. Se o marido não se sente bem usando o preservativo terá que arcar com as consequencias de um método alternativo. O mesmo se aplica se a esposa por desconhecimento ou formação optar por não usar contracepção química ou hormonal. No fundo este decisão não é só de uma das partes mas dos dois.

- A procriação não sendo a finalidade última da vida a dois concede mais profundidade e fecundidade na vida de um casal.
Basta falar com casais com problemas de infertilidade para compreender a benção que é ter a capacidade de gerar uma nova vida. Não sendo de forma alguma o único e último fim da vida sexual esta tem uma dimensão de co-criação e cooperação com Deus. É difícil encontrar um discurso abstracto que ilustre este argumento e por isso é mais fácil recorrer a exemplos. Um casal bem instalado em termos económicos e que tenha todas as possibilidades de ter uma ou mais crianças e não o faça por motivos profissionais o por comodismo, creio que é egoísmo. Um filho, se bem que eu ainda não seja pai, têm o condão de nos ensinar a partilhar partes de nós que muitas vezes penamos não existir.

- Cabe aos pais assegurar de forma responsável que os filhos tenham não só subsistência mas também bem estar e acesso pleno à educação.
Em gerações passadas ter uma descedência larga era assegurar a reforma para ter uma velhice mais ao menos descansada. Como a mortalidade infantil era extramente alta e a esperança média de vida bastante mais baixa havia que fazer o maior número de filhos para que o nome da família seguisse, a nação crescesse e houvesse pão na mesa. Hoje as coisas não são bem assim. Trazer filhos ao mundo sem um mínimo de condições pode ser arriscado mas é aceitável. Mas ter uma família numerosa e não tomar precauções para evitar mais descendencia é social e moralmente reprovável. É dever dos pais assegurar que nada falta a um filho em condições normais.

- Que a formação, o meio social envolvente e a capacidade económica influenciam todas as vertentes da vida a dois.
O nível de formação escolar influencia em muito a contracepção e prevenção de contágios com doenças sexualmente transmissíveis. Se por um lado nos meios mais educados muitas vezes acontece a opção pelo facilitismo por outro lado, nos meio mais desfavoprecidos existe a falta de informação. Uma criança educada num meio familiar aberto ao diálogo entre filhos e pais terá a maior probabilidade de se informar e prevenir. O mesmo se pode dizer de alguém que têm possibilidades financeiras para ter acesso quer informação quer aos meios. É tempo de ser honesto e olhar a realidade. Um casal que viva em África ou em muitos bairros da América Latina terá muito poucas chances de ter uma família de 2+3 utilizando o método natural. Por outro lado o facilitismo e a desresponsabilização nas sociedades chamadas ocidentais da sexualidade leva ao uso e abuso da contracepção artificial sem por fazer um esforço para tentar o que for que não seja a pílula. Quero com isto dizer quer os método chamados naturais quer qualquer de um dos métodos considerados artificiais, não pode ser usado como modelo padrão.

-O aborto não é meio contraceptivo e a única forma de o evitar é pela prevenção.
Todas as pessoas de boa vontade, independente da sua formação pessoal e religiosa, estão de acordo que o aborto é algo medonho, moralmente reprovável, com consequências profundas nas mulheres que o fazem e que deve ser combatido. Não basta reprimir ou descriminar civilmente que esta situação irá mudar. Não é apelando a cruzadas sem sentido que um zigoto não é pessoa ou que a vida começa no acto da concepção que algo irá alterar. Só com formação, um planeamento familiar sustentado e alargado a todos os níveis da sociedade se poderá combater este aborto que é o aborto. Se por um lado se reprime o uso da contracepção com que armas se quer combater o aborto? Por outro lado se liberaliza a prática do aborto sem critérios bem definidos e claros como se que primeiro exista uma campanha de sensibilização e esclarecimento de planemaento familiar com que armas combater o facilitismo e a mortandade de possíveis vidas humanas?

Assim voltando ao início, para diferentes pessoas, distintas fases da vida diversos métodos de contracepção deverão ser usados. Não vejo uma razão porque um casal jovem nos primeiros anos de casamento não possa utilizar os métodos naturais de forma até se conhecerem mais intimamente.

Por outro lado se este mesmo casal tenha um dos conjuges a estudar, com trabalho precário, estejam os dois numa situação financeira dificil (quem não tem créditos apertados no início de vida de casados) não vejo um argumento para considerar moralmente errado o recurso a métodos de contracepção quimíca e ou artificial.

Acho também revelador de falta de formação que numa consulta no médico de família sobre planeamento familiar se resuma a passar um receita para a pílula e que os métodos naturais são altamente perigosos e falíveis. Não sei o que muitas mulheres a dizer sobre isto mas isto são hormonas e estrogêneos estranhos ao normal funcionamnto do corpo. Sim que possam ser receitadas mas que seja dada a possibilidade escolha. Por outro lado considerado intelectualmente desonesto e criminoso apelidar de 100% seguro o método natural e abstinência como solução para as doenças sexualmente transmissíveis ou para famílias numerosas com dificuldades financeiras.

Os métodos naturais não são para todos. Aceito isso quer pela sua dificuldade quer pela necessidade da mulher se conhecer e do homem ter que partilhar esse conhecimento. Antes de me casar queria lá saber o que era muco, mudança de 0.6 graus na temperatura basal ou periodos de abstinência. O método natural exige empenho total do casal, fidelidade de forma a evitar contágios e acima de tudo muito, mas mesmo muito diálogo antes de optar por este caminho.

Para populações de formação mais pobre, nomeadamente em Africa ou America Latina o método natural não funciona na esmagadora maioria dos casos quer no control populacional quer na luta contra a propagação de doenças sexualmente transmissíveis.

Não há muito tempo, no princípio dos anos 80, essa coisa de camisinha era para maricas porque a SIDA só acontecia aos outros. Em Portugal, país tradicionalmnte católico, a infidelidade conjugal sempre teve uma taxa bastante alta mesmo que a taxa de divórcios não fosse espelho dessa realidade, o apelo à abstinência pela Hierarquia da Igreja foi totalmente ignorado. Graças a Deus não houve desgraças maiores muito por culpa de organizações pouco católicas que se empenharam na divulgação e em sessões de esclarecimento sobre formas de evitar o contágio.

Por tudo o que foi dito, acredito que é a formação nas diversas opções existentes mostrando os prós e e os contras de cada situação, planeamento familiar sustentado e responsabilização do acto sexual.

Em comunhão

sábado, outubro 07, 2006

Um pequeno começo

Já perdi a conta às vezes que quis ou tentei escrever um blog. Será que é desta que eu terei a disciplina e a paciência para escrever aquilo que me anda na alma?

Espero que sim.

Já existem uma quantidade bastante aceitável de blogs católicos, de evangelização e afins. Com este blog não pretendo mais que dar espaço aquilo que penso e que tantas vezes não consigo por escrito.

Muitas vezes sairão grandes palermices mas acho que o Chefe também gosta destas coisas.

Eu às vezes imagino-O a olhar para mim e a dizer «Tss tss, lá andas tu outra vez às cabeçadas»

Mas a vida é feita exactamente destas coisas.

Em comunhão