terça-feira, abril 24, 2007

Anti-clerical! Perdão, ateu esclarecido...

Confesso que gosto de ler o que pensam os que pensam diferente de mim, em especial uma meia dúzia de sites ateístas e alguns sites tradicionalistas católicos. Por incrível que pareça, as opiniões, que à partida deveriam ser tão diferentes, são muito idênticas quanto à ideia que fazem de Deus.

Mas para minha grande desilusão muitas das vezes, em vez de ouvir a defesa das suas posições, o que se pode ler muitas vezes são ataques às posições dos outros.

Eu por exemplo, tinha uma concepção de que um site ateísta, deveria apresentar uma visão do mundo sem Deus ou, num mínimo aceitável para uma saudável convivência com o resto do mundo que o rodeia, uma recusa baseada uma refutação lógica das opiniões crentes.

Um exemplo que há muito pouco tempo tive o gosto de conhecer é o blog De Rerum Natura, que em geral é um local onde o saber é cultivado e partilhado nas suas mais diversas vertentes.

No entanto o mais fácil e comum é o gozo e o menosprezo. Tirando raras excepções, os sites ateístas em português são anti-clericais. Vou mais longe afirmando que é mais fácil encontrar um lobo ibérico que um verdadeiro ateu. A verdade é que não existe ateísmo em Portugal mas simplesmente anticlericalismo.

Neste sites para além de serem anti-clericais, sente-se um elitismo bacoco em que se faz a propaganda de que o ateu é esclarecido, científico, lógico, quase uma raça à parte e mais evoluída. Por outro lado o homo religiosus é um ser baixo na escala de evolução que não se consegue livrar dos mitos dos antepassados e das suas mentiras e por isso só pode ser alvo de chacota.

A imagem de Deus, muitas vezes apresentada nestes blogs, é de um Deus mau, tirano e ainda para mais criado para oprimir e explorar as classes mais pobres e menos instruídas.

Claro que um dos alvos favoritos em Portugal é a Igreja Católica, que muitos destes blogs a tratam carinhosamente por "ICAR". Mas o mais incrível é que as críticas apresentadas são normalmente apontadas para uma Igreja que cada vez menos existe.

Assim, numa ira destruídora que nem o verde Hulk, a ICAR é pintada como uma hierarquia sexualmente reprimida, que propaga uma ideologia criada pelo homem para oprimir o outro, baseada num livro que está cheio de contradições e com um conjunto de fieis que merecem apenas pena.

É óbvio que qualquer tentativa de evolução é vista como luta pela sobrevivência e que apesar das muitas mudanças feitas desde o Concílio Vaticano II, o alvo católico continua parado no pós Trento.

É pena que assim seja, porque para a construção de uma sociedade melhor é necessário o diálogo entre todas as forças sociais.

É claro que existem ateus esclarecidos, que não acreditando, aceitam que outros possam ter uma fé, seja ela qual for. Um ateu deveria ser acima de tudo alguém que não acredita e não alguém que à força do mau gosto e do insulto se quer fazer passar por inteligente só porque os outros são, na sua opinião, inferiores a ele.

Num estado laico e democrático e que se quer plural, o respeito pelas minorias é um dever mas será que não se deve respeitar também a fé de cada um?

Em comunhão

domingo, abril 22, 2007

Nova Evangelização

Há mais ou menos um ano e meio, um dos tems mais discutido entre os meios católicos portugueses dava pelo nome Nova Evangelização. Com a aproximação do Congresso com o mesmo nome, da esquerda à direita, de modernitas aos ultra-tradicionalistas, todos davam as suas opiniões, críticas, queixas e sugestões.

Hoje, o Congresso passou, poucos se perguntam quais foram os resultados porque também são poucos o que se lembram do que se passou no dito congresso, mas continua a existir a urgência de uma real e concreta Nova Evangelização.

Para quem não sabe, este termo, foi primeiramente utilizado pelo Papa João Paulo II e visa principalmente catótilicos que deixaram a Igreja, isto é, procurar as ovelhas perdidas. Claro está, que poderiamos ficar por este assunto e discutirmos se vale a pena chover no molhado ou se mais vale ir pregar para outra freguesia.

Mas assumindo que re-evangelizar pode e deve ser um caminho para novos cristãos há que discutir propostas concretas.

Passo uma lista de coisas que deixo à reflexão...

1- Aplicação dos documentos conciliares e reformulação e restruturação dos conteúdos e métodos catequéticos.

2- A Partilha da sacristia entre leigos e sacerdotes de forma a proporcionar uma gestão mais participada da vida da paróquia.

3-Dar espaço aos leigos para ocupar lugares de responsabilidade dentro das estruturas da igreja. Que os padres sejam mais pastores e menos admnistradores.

4- Abertura ao diálogo franco e honesto entre teólogos conservadores e progressistas e não a censura porque alguém ousa pensar diferente.

5- Promoção do diálogo ecuménico partindo do pressuposto que ambos os lados estão dispostos a perdoar e a realçar os pontos que os unem e não os que os afastam.

6- A criação de novas formas comunitárias, ou a sua aplicação mais generalizada a exemplo do que acontece noutros países, Mariápolis, Comunidade das Beatitudes, Comunidade de Chemin Neuf em que padres, religiosos e famílias vivem em conjunto. Se bem que as paróquias também deveriam recduperar este lado comunitário cada vez mais esquecido.

7- Abertura à discussão moderada sobre assuntos polémicos como sejam os divorciados, a homossexualidade e a contracepção. Apresentemos a vida religiosa de uma forma positiva e não como uma obrigação.

8- Animação para crianças durante as missas permitindo que os pais se concentrem mais e os miúdos possam ter participação na festa que é missa de uma forma mais fácil para o seu entendimento. Se às vezes para nós uma hora de missa é uma seca imaginem os miúdos.

9- Expo Igreja- Todos os anos na FIL, fazer um mega-exposição festival à imagem do que aconteceu com o MultiFestival David com a possibilidade de todos os movimentos, congregações religiosas e dioceses estarem presentes com um stand e se darem a conhecer.

10- Criação de um centro de formação teológica e catequética de Verão para Jovens. Não ter medo de encarar que a juventude quer se encontrar e festejar, no fundo demonstrar que a Igreja é lugar de encontro e festa.

Em comunhão

quinta-feira, abril 12, 2007

Alergia aos irmãos Kaczynski

É com muita tristeza que tenho reparado que na blogosfera e na imprensa em português, tem surgido notícias muito pouco abonatórias quanto à política polaca. Se isso não me espanta muito devido à fauna política autóctone, acho que no entanto deve ser desmascarada quando quase que existe uma campanha concertada feita de mentiras e de mitos, que visa em especial os irmãos Kaczynski por, principalmente estes serem católicos praticantes.

Não é preciso ser muito participativo na vida política polaca para se ter uma opinião de quem se gosta ou não.

Mesmo quem não percebe muito de polaco não pode evitar de dar umas boas gargalhadas com as palermices do Lepper e os fait-divers que envolvem o partido da Defesa Pessoal (Samobrona em Polaco). Também é impossível não ficar triste e até indignado, que um país tão martirizado pelos maiores tiranos do século passado, possa ter partidos como a Liga das Famílias Polacas (Liga Polskich Rodzin em polaco) e com as declarações pouco cristãs, homofóbicas e fundamentalistas do senhor Giertych.

De referir que estes dois partidos fazem parte da coligação atípica e amorfa que governa o país motivada por um presente envenenado que o o anterior presidente ao marcar eleições presidenciais e para o parlamento para a mesma altura e que inviabilizou uma mais que esperada coligação entre o PO do senhor Tusk e o PiS dos irmãos Kaczynski.

Quanto ao partido dos gémeos irmãos Kaczynski, o PiS, e mesmo considerando ambos como pessoas inteligentes acho que a política interna e externa que eles querem seguir não é a mais indicada para um país que acabou de entrar na União Europeia. Ainda mais para um país de tantos contrastes e contradicções. Um país que bate constantemente recordes na bolsa de valores local mas que ao mesmo tempo tem a maior taxa de desemprego dos 25, que tem a maior taxa de frequência dominical da missa católica e que tem um batalhão interminável de hooligans e alcoólicos.

Mas voltando aos irmãos Kaczynski. São conservadores, católicos, um deles ainda vive com a mãe e são tudo menos bichos de câmara. Têm pouco à vontade com os média, as declarações na televisão são muitas vezes pouco naturais e pouco ou nada convincentes. Muito honestamente não me consigo lembrar de alguma coisa boa que tenham feito mas tão pouco me consigo lembrar de alguma coisa que tenham feito realmente mal.

Resumindo, são aquilo que eu considero um bom político do antigo regime comunista polaco, não fazem nada mas até não piorarem as coisas até podem ser considerados bons.

Já alguns dias tinha lido no blog Random Precision, um artigo que é simplesmente inqualificável pela quantidade de mentiras que apresenta.

Falam de uma coisa que eu estando a viver aqui nem sequer ouvi falar, uma tal de uma suposta Revolução Moral. Juntamente com o Diário Ateísta tem anunciado um estranha política
com iniciativas legislativas e políticas para impor os seus valores morais a todos os cidadãos. Quanto à homossexualidade não é preciso impôr nada porque 89% da população considera a homsexualidade uma aberração.

Dizem ainda que além de promoverem um discurso abertamente anti-semita, de proibirem qualquer forma de união de facto entre pessoas do mesmo sexo, de anunciarem a proibição do divórcio, de alterarem os currículos escolares para que o criacionismo fosse ensinado nas aulas, os irmãos procuram agora impedir os homossexuais de trabalhar na função pública, estando já em curso a apresentação de uma lista inicial oficial de proibições.

Para além da última afirmação que é parcialmente verdade, visto este projecto de impedimento visar só profissões em que se possa ter contacto físico com crianças e está a ser levado a discussão pelo Sr. Giertych, alguém já ouviu algumas destas parvoíces pelo menos nos meios de comunicação social? Já nem digo entrevistas dadas pelos gêmeos mas pronto...

Para terminar ainda a referência a estes Devaneios Desintéricos que com uma série de artigos prova que sabe tanto da Polónia como eu do cultivo de pera rocha. Pelo menos que fique a saber que os gêmeos se chamam Kaczynski e não Marcinkiewicz, que a Lustracja existe desde há muitos anos neste país e que ainda para mais tem a pretensão de querer ensinar democracia aos polacos com uma carta enviada ao embaixador polaco.

Há sem dúvida uma alergia ao gêmeos Kaczynski pregejada de mentiras, por entre um anti-clericalismo mal disfarçado e um ressentimento e saudosismo comunista do podre Pacto de Varsóvia.

Democracia implica respeitar não só as minorias mas também respeitar quem pensa diferente. O uniformismo, típico dos regimes totalitários pode também surgir por entre um liberalismo desgarrado e sem limites.

A minha liberdade acaba quando entro na liberdade do outro.

domingo, abril 08, 2007

Chrystus Zmartchwystał! Allelluja!

Tridium Pascal. Já é o segundo que vivo aqui na Polónia. O ano passado mal o senti porque foi uma semana antes do meu casamento. Este ano eu e a minha mulher tinha prometido queiríamos viver este tempo com maior intensidade. Para o fazermos escolhemos a Igreja de Sw. Jacek dos Dominicanos que dinamizam um grupo de pastoral universitária muito forte e conhecidos pela riqueza da liturgia.

Preciso de fazer um aparte antes de continuar. Para mim a Semana Santa modelo, sempre foi Taizé. Curta, sem grande pompa mas directa ao assunto para além do óbvio de estar inserido numa dinâmica de retiro. Por isso o que vivi, apesar de procurado e já antes anunciado superou todas as expectativas e por isso foi uma fantástica surpresa.

Três dias e a Igreja sempre a rebentar. As pessoas cheguem com uma hora de antecedência para se ter lugar sentados. Ao lado dos bancos da igreja existem ainda um bom par de centenas de cadeiras desdobráveis. São ainda claramente insuficientes e as pessoas estão respeitosamente de pé durante toda a celebração. No caso daVígilia Pascal, durante três horas e meia e ainda tiveram forças para um procissão de uma já esforçada meia hora.

Que se note alguns pontos importantes.

Primeiro esta igreja está bem no centro da cidade velha de Varsóvia. Ao lado coexistem e com um sucesso outras ordens, Jesuítas, Paulutinos, Franciscanos e ainda a própria catedral.

Depois, 80% das pessoas que estavam eram jovens. E esqueçam o betinho da linha de cascais ou menino certinho. Nada disso do grunge, ao metal pesado, ao revivalista dos anos 80 à esmagadora maioria de pessoas totalmente normais e todos rezaram e viveram com intensidade este tempo. Uma coisa que me chamou atenção, muitas jovensfamílias estavam presentes.

Por fim de notar ainda que não havia nenhuma decoração especial para além daquela que é habitual nesta altura em todas as igrejas polacas, os crucifixos cobertos com panos roxos, em alguma parte da igreja a representação do túmulo de Jesus e nada mais.

Mas o que move estes jovens que não os faz mover nos outros países? Que faz com que as Igrejas estejam cheias? Que raio de atracção é esta que éproporcinalmente inversa ao resto da Europa?

Não consigo encontrar respostas... consigo apenas dizer o que me atrai pessoalmente. Antes demais o cuidado musical. O coro, em especial da Pastoral Universitária dos Dominicanos da Freta 10 é simplesmente impecável. Tudo jovens universitários que passaram muitas horas de preparação para um reportório a 4 vozes e o mais fantástico não me lembro de uma única música repetida, nem sequer o Santo. E atenção, não se caia na tentação de pensar em música coral chata e aborrecida. Toda a assembleia cantava e participava conforme as suas capacidades. Fantástica a ideia de terslides com as letras num grande quadro bem ao lado do altar. Tira um pouco de beleza mas contribui fantasticamente para criar uma atmosfera participativa.

Outra coisa que impressiona... a liturgia é vivida porque é percebida, interiorizada, rezada. Embora no altar, a comunidade dominicana, mistura-se com os leigos e os leigos misturam-se com a comunidade. Em redor do altar para além dos religiosos, estão rapazes e raparigas leigos, as próprias introduções a cada momento da liturgia são feitas por uma rapariga, o coro está ao lado altar, o acesso à sacristia é livre. Antes e depois das cerimónias aqui e ali um padre conversa com uma família, um jovem que tem uma dúvida e até ao momento exacto das celebrações as filas para os 8confessionários são intermináveis e constantes. Os religiosos vivem para Deus e daí encontram forças e apoio para viverem para os leigos. Os leigos recebendo apoio espiritual e comunidade, apoiam a comunidade no seu tempo livre, vivem o cristianismo dentro das suas vidas e não só ao domingo.

Finalmente e para mim o mais importante, apesar dos padres dominicanos andarem sempre de hábito branco, estarem bem diferenciados em termos de vestuário, em termos de partilha e busca de Deus, senti-me inspirado a buscar mais porque eles também estão em busca. Não há espaço para fins, só caminhos, busca em comum, partilha cristã e fraterna de quem aceita e vive os dons que oEspírito Santo deu a cada uma das pessoas, sejam elas casadas, solteiras ou celibatárias.

Taizé, ou a vida em comunidade que se pode experienciar ali, pode ser vivida no nosso dia a dia. Este Tridium Pascal, mostrou-me que isso é possível e que realmente a Eucaristia é o centro da nossa vida cristã quando se partilha o que se tem.

O Senhor Ressuscitou! Aleluia! Chrystus Zmartchwystał! Allelluja

Em comunhão

Aleluia

Jubilate Deo omnisterra! Aleluia!

O Senhor Ressuscitou como tinha dito. Aleluia!
Aleluia!

Cristo Ressuscitou. Ele Ressuscitou de verdade! Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Em comunhão