quarta-feira, julho 18, 2007

Novas Paróquias

Enquanto nos entretemos com missas em Latim, os problemas que comem por dentro e fazem esmorecer as comunidades cristãs persistem e agravam-se. Não menos vezes dou-me conta que um sem número de pessoas se esquece que não basta apenas rezar, há que constituir comunidades que rezem juntos. Um crente só esmorece, e a sua fé seca pela aridez que o envolve. Uma comunidade forte, orante e activa, faz sentir a sua presença na sociedade civil e é um pólo missionário apresentado ao serviço e na acção, sustentado pela Eucaristia vivida e participada.

Por isso mesmo, um dos assuntos que deveria ter uma abordagem mais urgente é o conceito de paróquia enquanto unidade comunitária mínima dos crentes. Este
artigo da Agência Ecclesia dá conta disso mesmo.

A paróquia tradicional é um modelo antigo de organização administrativa baseado no sistema romano de administração civil e que durante muitos e largos séculos funcionou. Historicamente a paróquia, bem como a diocese são a base da nossa organização administrativa civil que derão lugar à freguesia e ao concelho e que continuam a estar válidos. No entanto em questões de organização comunitária de crentes do século XXI a paróquia é chão que já deu uvas e que urge substituir por novas formas comunitárias.

O modelo paroquial está a definhar, não por ser antigo mas porque o ritmo de vida urbano, solitário e móvel não permite tempo a que se criem bases sólidas que possibilitem o florescer de comunidades de vida cristã. Para além disso há acrescentar a falta de padres o que irá obrigar a uma mais que previsível diminuição do número de paróquias, a um distanciamento entre o pastor e as ovelhas e uma diminuição do número de eucaristias.

Assim há que entender urgentemente que a comunidade de crentes não se pode resumir ao conceito tradicional de paróquia com um ou mais padres que se dedicam a 100% o seu tempo às coisas do mundo religioso. A solução, e o Concílio Vaticano II é profético neste aspecto, passa por um maior papel dos leigos sendo que o papel dos padres terá que voltar ao papel ocupado durante as primeiras comunidades cristãs. Os padres e consagrados tendo uma posição itinerante de vigilância, de apoio espiritual, de condução espiritual muito ao estilo de Paulo, Pedro e os primeiros apóstolos, e os leigos organizando as suas celebrações da palavra, catequeses, baptizados, casamentos e funerais, grupos de vista social e pastoral e administração da vida comunitária.

Hoje em dia, creio que demasiadas vezes, as paróquias tornaram-se lugares de administração em que o lugar mais visitado é o cartório. Em vez de ser um espaço de partilha, fervilhante de vida e actividades pastorais e sociais, é o lugar da desobriga dominical, um lugar das obrigatórias festas para o povo ver e estigmatizado pelas únicas frequências serem durante os funerais. As comunidades tem que se tornar mais autónomas e espontâneas no sentido de actuação e celebração da fé em Cristo mas com cristãos melhor formados e conhecedores da sua fé para que permaneçam em unidade com a Igreja.

Tenho o privilégio de conhecer algumas paróquias que são realmente comunidades orantes, pedras vivas da Igreja Infelizmente a realidade mais comum é aquelas que muitos conhecem que leva os jovens a abandonarem porque acham a paróquia uma seca e os mais velhos se ressequirem por dentro numa solidão cada vez profunda.

As paróquias do futuro serão muito maiores e, independentemente do número de crentes, organizadas e dividas por grupos de afinidades/talentos. As celebrações da palavra paroquias terão que ser mais frequentas pressionadas pelas necessidades de doses diárias oração comunitária. As Eucaristias embora mais raras serão apreciadas como momentos especiais de reunião e de unidade comunitário. Os padres poderão ser menos ou não mas terão que deixar de ser administradores de bens para serem pescadores de homens e pastores de almas.

Para as novas paróquias... “Só isto é necessário: comportai-vos em comunidade de um modo digno do Evangelho de Cristo, para que - quer eu vá ter convosco, quer esteja ausente - ouça dizer isto de vós: que permaneceis firmes num só espírito, lutando juntos, numa só alma, pela fé no Evangelho”
1 Fil, 1:27-28

Em comunhão

quarta-feira, julho 11, 2007

Ainda o Motu Próprio

Muito se tem falado e comentado sobre este Motu Próprio sobre a possibilidade de utilizar o missal aprovado antes do Concílio Vaticano II.

Desde o princípio tenho mostrado as minhas reticências em relação este rito, não por me opor de forma especial a esta formação de celebração litúrgica mas principalmente pelas intenções daqueles que promovem e fizeram pressão para que este Motu Próprio viesse à luz do dia.

Embora num esforço de abertura e esperança se faça por olhar para o lado e dizer que há uma intenção de incluir de quem está de fora, não é menos verdade que justamente e quase em simultâneo com o Motu Próprio surgem uma série de documentos a revelar uma posição de força e de centralização no universo decisório da Igreja.

Mas voltando ainda ao tema do Motu Próprio, o regogizo e a felicidade estão patentes nas diversas mensagens que as ruas mais conservadores da Cidade de Deus deixaram espalhadas na internet. Por outro lado, os bairros mais populares e liberais cerram fileiras negando à partida e incondicionalmente celebrar no rito Tridentino imbuídos num espírito bairrista e quase sindicalista. Muitas casas nesta cidade de Deus remeteram-se ao silêncio. Uns por medo, outros por estarem ainda em período de reflexão outros mais, uma maioria silenciosa, calados porque simplesmente não ouviram e nem lhes interessa muito este assunto.

Assim há concerteza vários pontos de reflexão que é preciso pôr em cima da mesa e deixar o Espírito Santo actuar em nós para quer nós sejamos realmente mais uma Igreja a caminho de Deus e não a caminho do Homem.

A primeira conclusão é que há que admitir que há abusos litúrgicos que são precisos corrigir e evitar, mas há que definir também o que é considerado abuso. Provavelmente por ser português e ter sempre vivido num contexto que considero ser de razoável dimensão espiritual, não conheço in loco os abusos que tanto escandalizam os tradicionais fiéis e o Papa. As missa de Palhaços que se vê em meia dúzia de vídeos, missas espectáculo ou com música agressiva ou de gosto duvidoso podem ser consideradas abusos litúrgicos graves mas não acredito que sejam assim tão difundidas como querem fazer parecer.

Então de que outros abusos se fala?

Recusa de dar a comunhão na boca ou a quem se ajoelha. Será isto um abuso ou simplesmente uma convicção do pároco em questão? É que a mim já me recusaram várias vezes dar comunhão na mão e não sei se considero isso um abuso litúrgico. É com certeza uma atentado à liberdade de expressão da fé, mas quer uma quer outra forma de recusa. Às vezes também sinto vontade de receber a comunhão de joelhos...

Depois há também quem diga que o padre não estava bem paramentado, ou que a a missa em vernáculo é pouco sagrada e que o Canto Gregoriano tem que ser uma constante.

Na realidade ninguém viu da parte do Papa uma lista ou um enumerar de erros ou abusos necessários de corrigir. Aliás quer no documento em si do Motu Próprio, quer na carta que se fez acompanhar quando destinada aos irmãos bispos, não há uma única referência a abusos. O que o Papa diz é que "em muitos lugares, se celebrava não se atendo de maneira fiel às prescrições do novo Missal, antes consideravam-se como que autorizados ou até obrigados à criatividade, o que levou frequentemente a deformações da Liturgia no limite do suportável".

Então a culpa não está no missal mas nos celebrantes o que é um aspecto totalmente diferente do rito. É como se de alguma forma quererem acusar a existência Lei pelos abusos que são praticados. O que é obviamente uma conclusão ridícula, visto estas deformações da Liturgia são arbitrárias e à revelia do Missal do Novus Ordu.

Há também um reforçar da ideia de que o Missal de Paulo VI é a forma ordinária e que ambos os missas
são duas versões do Missal Romano e não podem ser encarados como se fossem «dois ritos». Trata-se nas palavras do Papa "antes, de um duplo uso do único e mesmo Rito".

Mas existe aqui um percalço que, no meu entender é propositado. O Papa admite que o "uso Missal antigo pressupõe um certo grau de formação litúrgica e o conhecimento da língua latina; e quer uma quer outro não é muito frequente encontrá-los" e que por conseguinte " já se vê claramente que o novo Missal permanecerá, certamente, a Forma ordinária do Rito Romano, não só porque o diz a normativa jurídica, mas também por causa da situação real em que se encontram as comunidades de fiéis."

Por outras palavras, o Papa tem um alvo concreto, Fraternidade São Pio X e todos aqueles que utilizam como frente de combate a Liturgia para acabar com o Concílio Vaticano II. É o próprio a revelar que a sua intenção positiva é a busca de unidade e reconciliação de forma a que "esta sensação do passado impõe-nos hoje uma obrigação: realizar todos os esforços para que todos aqueles que nutrem verdadeiramente o desejo da unidade tenham possibilidades de permanecer nesta unidade ou de encontrá-la de novo".

De acordo com esta intenção saltam 3 perguntas:

1º Serão assim tantos "os que seguem aderindo com muito amor e afecto às anteriores formas litúrgicas" ou terão alguma uma importância maior que mereçam uma atenção especial?

2º Tendo em conta que o Papa atendeu "as insistentes petições destes fiéis", para quando a mesma tomada de posição em relação a outros de assuntos que há tanto tempo têm andado sobre a mesa?

3º Por último, será que o alvo desta operação de charme, a Fraternidade São Pio X e outros tradicionalistas estão dispostos a aceitar:

-"Estas duas expressões da “Lex orandi” da Igreja não levarão de forma alguma a uma divisão da “Lex credendi” (“Lei da fé”) da Igreja; são, de fato, dois usos do único rito romano."
- que "para viver a plena comunhão, também os sacerdotes das Comunidades aderentes ao uso antigo não podem, em linha de princípio, excluir a celebração segundo os novos livros."
- o Concílio Vaticano II

Para já vou esperar, rezar e continuar minha vida como católico que tenho sido até aqui.

No céu da Cidade de Deus nuvens pesadas e escuras, lembram a possibilidade de tempestade. Caíram alguns pingos grossos mas mesmo que se abata forte, quem anda à chuva... molha-se.

Em comunhão

quinta-feira, julho 05, 2007

Liberalismo e Cristianismo

Já não me chegava o Vaticano para me vir com regulamentações, cânones, Motus próprios e catecismos agora até os ateístas tem opinião sobre o que deveria um ser católico.

Nas minhas aventuras por blogs estrangeiros, dei de caras com um texto no Diário Ateísta (DA) que achei surpreendente. O texto, O Catolicismo é contrário ao Liberalismo, quer demonstrar que um católico coerente não pode ser liberal e para tal faz recurso a uma série de documentos papais.

Não será caso para dizer que o ateísta está a ser mais papista que o papa? Mas afinal este artigo no DA é um desejo ou uma realidade?

É uma certeza, que ao contrário o que possa pensar, evolução na continuidade implica saber reconhecer os desvios e os erros e tentar por fazer melhor.

Pessoalmente e seguindo o exemplo de Dom Pedro Arrupe, antigo geral dos Jesuítas, dou graças a Deus pelo Marquês do Pombal, pelo liberalismo, pela revolução francesa, por Darwin e sou com um orgulho envergonhado católico.

Aliás acho piada que este texto utilize como referência para recolher os textos do Vaticano, site do tipo mais reaccionário que se apelida de católico, o Professor Pirelli (Orlando Fidelli no original).

Se é isto de católico que utilizado como referência para as críticas de um ateu, então compreendo muito bem porque se é ateu. Ser ateu por oposição este tipo é fácil. Diria mesmo demasiadamente tentador.

Mas voltando à questão do liberalismo e do catolicismo. É verdade, e a prová-lo, são os textos linkados no DA, que ao longo dos tempos a Igreja/Hierarquia se opôs aos movimentos sociais liberais.

Muito honestamente não consigo encontrar em que ponto um verdadeiro católico consegue encontrar motivos para se ser contra ao Liberalismo Clássico.

Tomando em conta que

O liberalismo clássico é uma ideologia ou corrente do pensamento politico que defende a maximização da liberdade individual mediante o exercício dos direitos e da lei.O liberalismo defende uma sociedade caracterizada pela livre iniciativa integrada num contexto definido. Tal contexto geralmente inclui um sistema de governo democrático, o primado da lei, a liberdade de expressão e a livre concorrência económica.

O liberalismo rejeita diversos axiomas fundamentais que dominaram vários sistemas anteriores de governo político, tais como o direito divino Dos reis,a hereditariedade e o sistema de religião oficial. Os princípios fundamentais do liberalismo incluem a transparência, os direitos individuais e civis, especialmente o direito à vida, à liberdade, à propriedade, um governo baseado no livre consentimento dos governados e estabelecido com base em eleições livres; igualdade da lei e de direitos para todos os cidadãos.

In Wikipedia Liberalismo Clássico


Em quê pode ser um católico contra isto?

Eu compreendo que a Hierarquia quisesse combater as revoluções liberais face às percas de poder, propriedade e influência. Mas como é possível no século XXI um católico esclarecido continuar defender tais posições quando se sabe hoje sobre o escândalo dos senhorios clericais, os faustosos e pouco evangélicos palácios episcopais e as escandalosas e indignas fortunas acumuladas à custa de dízimas que estorquiam e esmifravam o povo?

Sim, houve muitos exageros na Revolução Francesa e no caso particular português no Processo de implantação da Monarquia Liberal e da 1ª República. Nada justifica a vingança e muito menos quando estão em causa valores como igualdade, fraternidade e liberdade, por isso compreendo que muitos católicos se sentissem enganados e verdadeiramente perseguidos.

Por isso lanço o desafio de alguém me demonstrar onde há a incompatibilidade entre o liberalismo e o cristianismo.

Em comunhão

terça-feira, julho 03, 2007

O que é Evangelizar?

Evangelizar não significa em primeiro lugar, falar de Jesus a alguém, mas, a um nível muito mais profundo, fazer com que essa pessoa perceba o valor que tem para Deus. Evangelizar é comunicar estas palavras de Deus que surgem cinco séculos antes de Cristo: «És precioso aos meus olhos, eu estimo-te e amo-te» (Isaías 43,4). Desde a manhã de Páscoa, sabemos que Deus não hesitou em dar-nos tudo, para que nunca nos esqueçamos do nosso valor.

In Comunidade de Taizé, texto completo