quinta-feira, agosto 09, 2007

Uma humilde pobreza


Felizes os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus.


Que pobreza é esta de que fala Jesus? Quem são estes pobres? Para responder a estas duas questões, temos que partir de um pressuposto e lembrar-nos dele de cada vez que chegamos a uma qualquer conclusão extraordinariamente absurda.

Deus é Amor!

Um Amor que é tal maneira incondicional, que nos permite ser livres até ao ponto de O negarmos e esquecermos.

Mas se assim é, como pode Deus querer que existam pobres no mundo?

A palavra pobreza em português remete-nos para uma situação financeira incomportavelmente fraca, numa existência miserável quase desumana. A Pobreza automaticamente associamos com as favelas no Brasil ou os barros de lata em Lisboa; lembra-nos os acampamentos de etnia cigana, cheios de crianças sujas a brincarem no meio do lixo; vem-nos à memória os mendigos, os sem-abrigo, os imigrantes ilegais e um sem número de situações difíceis de conviver e que tantas vezes fazemos por ignorar.


No entanto e muito embora Cristo nos chame a ser portadores da Boa-Nova a e construtores do Novo-Mundo em especial para esses mais pequeninos, a pobreza de que fala Jesus nas Bem Aventuranças não está directamente ligada a uma questão de monetária. Existem na história do mundo e também no santorial exemplos de pessoas que embora sendo ricas se abandonaram à bondade e à pobreza que dá acesso ao Reino de Deus.

Esta pobreza feliz não é a miséria daqueles que escolhem serem pobres por preguiça ou por vício. Embora muitas vezes um alcoólico ou um toxicodependente possam viver em condições miseráveis e de extrema pobreza, obviamente que não são estes que Jesus considera os felizes. Quantas vezes as vidas de muitas famílias ciganas não poderiam ser melhores, se optassem por mudar algumas das suas tradições?

A pobreza que Cristo considera bem aventurada, tão pouco é aquela auto-infligida negligentemente. Alguém que foi rico e que perdeu toda a sua fortuna no jogo ou em negócios ilícitos tornando-se pobre, não é de certeza um pobre de Cristo. Não só porque desperdiçou os talentos que Deus lhe deu, mas sobretudo porque a sua pobreza é artificial quase forçada.

A pobreza de que Cristo fala, pode-se traduzir por humildade. A humildade da pobreza.

Já consigo ouvir os eternos revolucionários a gritarem palavras de ordem contra a humildade. Mas atenção meus senhores, humildade não significa nem de humilhação ou falta auto-estima nem tão pouco incapacidade de raciocínio crítico e/ou imobilização.

O humilde de Deus é um pobre não só por analogia mas também por comparação directa.

Quem é pobre sabe que tem que lutar para sobreviver, mas aprende também, que muitas vezes tem de depender e confiar no outro e que frequentemente aí reside a sua sobrevivência. O humilde de Deus sabe reconhecer o seu papel de co-criador do mundo mas aprendeu a pôr nas mãos de Deus a sua vida.

O verdadeiro pobre muitas vezes tem pouco, mas o pouco que tem, sabe partilhar com aquele que ainda tem menos. O humilde de Deus não arreiga para si os talentos que Deus lhe deu, mas põe-nos ao serviço aceitando as suas limitações.

O pobre como não tem nada, pouco tem a perder. O Humilde de Deus admitiu que tudo o que possui é por empréstimo e que é um eterno peregrino sem tecto e sem duas capas.

É agora que chegamos ao momento que precisamos recorrer ao pressuposto Deus é Amor.

Diz Paulo:
Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita.
Toda esta humilde pobreza só tem sentido se for vivida por Amor, ou seja para Deus e para os outros. Posso ser o tipo mais activo e caridoso da paróquia ou do grupo de jovens mas se o faço por minha auto-realização, então sou mais um miserável. Um miserável que ajuda é verdade mas:

sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine.

vazio e sem chama que me impede de operar a verdadeira mudança no mundo e na essência mais profunda.

É lícito e no espírito do Evangelho que aquele que trabalha, receba a sua recompensa monetária justa. Jesus por várias nos dá parábolas em que fala de pessoas bem abastadas, como por exemplo o Pai da parábola do Filho Pródigo ou o Bom Samaritano e estes não deixam de ser exemplos a seguir.

A pobreza feliz e bem aventurada é a do coração. Aquela que nos faz exclamar como o Centurião:

Senhor, eu não sou digno de que entres debaixo do meu tecto; mas diz uma só palavra e o meu servo será curado.

Em comunhão