sexta-feira, julho 24, 2009

Igreja em “Movimentos”

Não conhecia o blog do sobrinho e creio ser a primeira vez estar a ler um post da sua autoria. No entanto a temática abordada é muito importante até porque é uma situação que é generalizada. Assim aproveito para postar o comentário que fiz sobre este post.

Antes de abordar a questão que mais me atraiu, a questão dos movimentos, gostava de comentar a questão das comunidades móveis ou flutuantes.

O conceito de paróquia como comunidade territorial deixou de fazer sentido a partir do momento em que viajar 10, 20 ou 30 kilometros se faz no mesmo espaço de tempo que há um século atrás se faziam 3 ou 4 quilometros. Toda esta questão da pastoral paroquial deveria ser revista e ser posta na ordem do dia para ser discutida com uma certa urgência pois existem casos de paróquias abandonadas em deterimento de outras simplesmente porque uma tem um coro mais a gosto ou a outra "um padre que faz umas homilias tão bonitas".

Há também que rever a questão da pastoral dos jovens, das famílias e dos profissionais visto que cada vez mais os grupos sociais são um factor de congregação. Que propostas concretas existem para famílias jovens ao nível das paróquias?
Que formação existe nas paróquias para jovens que queiram continuar algo para lá dos típicos 10 anos de catequese?
Quem se ocupa da moral e da ética de cada grupo profissional senão os movimentos?

Tudo isto são questões muito importantes que deveriam ser estudadas com bastante atenção pois são estes factores que podem criar soluções para a aparente crise da Igreja.

Mas voltando à questão das paróquias estarem a ser entregues a congregações e a movimentos. Apesar de concordar que é uma situação normal que as ordens e as congregações tomem conta de paróquias em especial num contexto de falta de párocos, não partilho dos seus receios quanto aos movimentos.

Esta situação pode ser nova porque a realidade dos movimentos surgiu sobretudo após o Concílio Vaticano II mas posso lhe garantir que é uma experiência muito bem sucedida onde esta realidade já está bem difundida, nomeadamente em Itália, França e no Brasil.

A partir deste momento e para ser mais fácil passo a citar um parágrafo e a fazer o comentário por baixo.

"No caso das Congregações, julgo que surge de forma muito natural. Muitas das vezes tem a ver fundamentalmente com a proximidade de Seminários e tornasse uma solução pastoral lógica. Já em relação a Movimentos, sendo na maior parte deles formados maioritariamente por leigos, julgo ser mais questionável."

Penso que ainda não teve acesso a toda a informação em relação aos movimentos. Muitos dos movimentos como os Focolares, o Caminho Neocatecumenal, a Comunidade Emanuel e muitos outros, possuem ou seminários próprios, ou enviam os padres dos seus institutos religiosos ou fraternidades sacerdotais para terem formação pastoral, filosófica e teológica em seminários diocesanos ou de ordens. É o carisma de cada movimento, tal como acontece nas ordens e congregações, que marca a espiritualidade da vida paroquial e que dinamiza a sua acção.

Quando uma paróquia é entregue a algum movimento esta não fica entregue a um grupo de fieís. Isto, das paróquias serem entregues a fieís, ocorre normalmente num contexto de extra-movimentos promovendo a inter-relação dos vários grupos e movimentos já existentes na paróquia.

"Ou o Movimento já se encontra enraizado na Paróquia e de forma natural surge como principal dinâmica pastoral, ou se são efeitos de conveniências exteriores ao seio da comunidade, ainda que implementado esse projecto consolidadamente, pode ser fracturante e mesmo dispersante."

Alguns Grupos, apesar de quase independentes, já caíram na banalidade das nossas Paróquias. Grupos como a Legião de Maria, as Equipas de Nossa Senhora ou, um exemplo mais frequente, o Corpo Nacional de Escutas. Mesmo sendo Grupos com directerizes muito próprias, as Paróquias já estão habituadas a esses Grupos. Muitos deles até assumem um forte papel pedagógico, ficando quase ao nível da Catequese."
Acho que há aqui alguma confusão.

Não se pode e nem ninguém iria entregar uma paróquia ao Corpo Nacional de Escutas nem tão pouco as Equipas de Nossa Senhora por diversas razões. Primeiro porque estes movimentos são movimentos sem ramos ou institutos sacerdotais. Este factor constitui por si só um factor de exclusão num processo de selecção de possíveis movimentos para tomarem conta de uma paróquia.

Segundo porque estes movimentos tem uma funcionalidade muito específica que não conseguem abranger toda a dimensão comunitária de uma paróquia. O CNE é um movimento de formação integral de jovens, as ENS visam o acompanhamento de casais católicos e por aí adiante. Por fim é importante lembrar que alguns movimentos presentes nas paróquias são "filhos" de alguma ordem como por exemplo os Jovens Sem Fronteiras ou a Juventude Vicentina ou são "apenas" uma face da vida de um movimento/comunidade como é o caso das comunidades do Caminho NeoCatecumenal ou o Movimento Juvenil pela Unidade dos Focolares.

Quanto à questão dos movimentos poderem ser fracturantes ou motivo de dispersão, isto já aconteceria mesmo com iniciativas individualizadas do prior da paróquia. Com certeza que nem todos querem ser acólitos ou cantar no coro, ou serem leitores ou ministros da comunhão. Uns provavelmente gostariam mais de contribuir para a preparação da catequese enquanto outros valorizam mais as acções de rua. O importante é pôr o movimento ou o que seja ao serviço do outro e com isso tentar levar Jesus mais perto das pessoas através de coisas que as pessoas se sentem mais inclinadas.

"Outra coisa são os Movimentos que assumem ainda hoje, muitas vezes, o título de «seitas» entre os crentes."
A culpa desta demonização dos movimentos é repartida entre os padres diocesanos, os próprios movimentos e os outros.

Por um lado temos os párocos que têm um pouco medo de perder "clientela" e poder de decisão dentro da sua paróquia. São vários os casos de chefes de agrupamentos em diferendos abertos com os assistentes, grupos de jovens que "roubam" estes durante os momentos comunitários por excelência como a Páscoa ou o Natal ou outros movimentos que pura e simplesmente excluem os assistentes religiosos das suas actividades regulares. Se alguns padres aceitam isto, outros não só condenam como também demonificam e apelidam de seitas.

Por outro lado, os movimentos encerram-se muitas vezes dentro de si mesmo dando uma ideia de secretismo, utilizando muitas vezes uma linguagem que podemos dizer de código ("Boa caça!") que facilmente exclui os outros. Ou seja, como as seitas! Os movimentos criam também mutas vezes círculos muito unidos em pouco ou nada permitindo a entrada de novos elementos.

Lembro-me dos meus tempos de adolescência ter amigos dos escuteiros, amigos das equipas e amigos de Taizé. Por vezes, muito raramente as mesmas pessoas coincidiam mas muitas outras vezes arrisco a dizer a maioria dos casos, não só se excluiam como competiam entre si.

Por fim temos os outros, aqueles que não fazem parte de nenhum movimento. Estes sentem-se excluídos e por isso tentam desvalorizar os movimentos criticando e extrapolando o já mencionado isolamento auto imposto pelos movimentos.

"Se trazem "revitalização", a verdade é que também fermentam as comunidades "móveis". A falta de identificação surge no topo dos motivos. Depois vêm os que não estão "formatados" com aquela espiritualidade e por fim aqueles "cépticos" que julgam estar perante «seitas» que praticam desvios espirituais e assumem rituais muito próprios mas que estão longe do canonicamente instituído."

Eu aqui confesso que fico um pouco preocupado que alguém se preocupe com estes ditos desvios espirituais ou litúrgicos que alguns movimentos possam trazer. Não é reconhecido por quase todos que neste momento os grandes promotores do renovamento espiritual e litúrgico são precisamente destes novos movimentos/comunidades (Focolares, Caminho Neocatecumenal, Comunhão e Libertação, Comunidade de Emmanuel, Regnum Christi, Comunidade de Santo Egídio, Renovamento Carismático, Movimento de Vida Cristã, entre outros)?

Na realidade portuguesa a vida espiritual ao nível paroquial está na grande maioria dos casos resumida ao pacote sacramental (Batismos, Casamentos e Funerais) e para os mais empenhados o adiconal pacote dominical (Domingo e dias de festas). Não podemos dizer que a direcção espiritual seja o grande forte das nossas paróquias. Não me lembro de nenhuma paróquia seja conhecida pela sua actividade espiritual junto dos fieis. Há algum padre diocesano que ultimamente tenha escrito alguma coisa sobre espiritualidade?

Em relação à liturgia, são nas paróquias que acontecem os maiores abusos não só por falta preparação e de acompanhamento mas sobretudo por falta de tempo. Há domingos em que os padres celebram 4 ou mais vezes. Se na primeira missa a Homilia ainda sai com alguma convicção, na segunda já flha entusiasmo e nem se fala quando se chega à última. Para não falarmos da pouca preparação dos coros (quando os há) cantando músicas muito pouco litúrgicas ou músicas do tempo da outra senhora que só as velhotas ainda conhecem.

Porque acha o Sobrinho que há tantos jovens portugueses a procurar Taizé? Renovação Liúrgica e espiritual.


"Pessoalmente, julgo que soluções pastorais de entregar o comando das Paróquias a Congregações, muitas vezes até face à "falta" de vocações, são aceitáveis. Mas entregar e conduzir comunidades Paroquiais Diocesanas pelo mesmo caminho de grupos mais restritos e com um carisma próprio pode torna-se muito perigoso e devastador para a identidade da comunidade."

Infelizmente estou em desacordo. Concordo que as congregações são uma solução mas a meu ver devem ser sempre uma solução temporária ou com um objectivo específico como as missões juntos de uma comunidade emigrantes, ou numa paróquia num bairro social ou pura e simplesmente numa situação de ausência de padres. Estou em crer que o futuro não passará pelos seminários diocesanos onde ainda se cultiva e incentiva uma cultura de classes, dos eleitos, do nós (padres) e do eles (leigos).

Para além disto a ausência de comunidades que suportam os padres (ser celibitário não é fácil e não ter uma comunidade com quem compartir as dificuldades do dia-a-dia ainda torna a tarefa mais difícil) e de uma espiritualidade organizada faz com que as vocações procuram sítios mais "abrigados". Um padre de uma congregação ou de uma ordem não vai ficar uma vida inteira a trabalhar numa paróquia. Em muitos destes novos movimentos as responsabilidades de dirigir, programar e dinamizar a paróquia é não só compartida com outros padres mas sobretudo com leigos empenhados.


"Assim sendo, aquilo que vos peço é que rezem pelas Vocações aos nossos Seminários Diocesanos. Para que Deus acolha aqueles que O procuram de coração aberto ao próximo e ao serviço da Sua Igreja. Cabe-nos a todos nós, com a nossa acção e oração, "revitalizar" as nossas Paróquias. Não nos centremos tanto na solução de problemas mas acima de tudo de como evitar esses mesmos problemas de futuro, não ficando apenas e só pelo imediato."


Pode contar que vou rezar pelas vocações mas não vejo necessidade de rezar por vocações para os seminários diocesanos. Nós leigos precisamos de padres, sejam eles diocesanos, de ordens ou de movimentos e que sobretudo sejam humanos e não máquinas ao serviço da maquinaria burocrática paroquial.

Em comunhão