quinta-feira, setembro 24, 2009

O Império contra ataca

O Padre Gonçalo continua a insistir na sua vertente de engraçadinho sem ter graça nenhuma. Desta vez enviou uma carta de agradecimento à direcção do Público. Em itálico segue o texto original e abaixo o meu comentário

 1. Agradeço à direcção do PÚBLICO a gentileza de ter dado à estampa dois textos da minha autoria, dando assim um corajoso exemplo da liberdade e do pluralismo de opinião desta publicação. Agradeço também aos muitos leitores que me felicitaram por motivo destes artigos, bem como aos que manifestaram a sua discordância e que igualmente merecem toda a minha estima e consideração. Bem hajam!
Caro Padre Gonçalo, os jornais portugueses têm por norma publicar as cartas que os seus leitores lhe escrevem. Não é que o senhor director do Público se lembrou pura e simplesmente de procurar um texto da sua autoria e disse: “Vamos lá mostrar estes textos convincentes e cheios de humor refinado.”

Embora não veja onde está a coragem de publicar na secção de cartas um artigo de um padre católico, concordo consigo que esta jornal prima pela liberdade e pluralismo de opinião. No entanto gostava de lhe pedir que explicasse melhor qual é a sua opinião sobre a educação sexual, mas desta vez sem recurso ao humor. É que no texto sobre a gripe A eu percebi que a mensagem que queria passar era a do excesso de zelo um pouco injustificado até ao momento. No entanto no texto sobre a educação sexual, desculpa a insistência mas é que não descortino nenhuma opinião para além de uma recusa liminar.

Subentende-se que o Padre Gonçalo discorda com a introdução da disciplina de educação sexual nos curriculos escolares mas numa sociedade livre plural não chega dizer “Sim porque Sim” ou não “Não, porque quero” para se ter uma opinião. Isso até as criancinhas de 2 anos conseguem fazer.

2. Não obstante a sintonia dos textos com a doutrina da Igreja, os mesmos mais não são do que um exercício de liberdade e de cidadania do seu autor que é, portanto, o seu único e exclusivo responsável. Não obstante o meu celibato, não quero que esta culpa morra solteira.

Em que é que o texto sobre a educação sexual tem alguma coisa que possa estar em sintonia ou não com a doutrina da Igreja? Mas falar das façanhas do nosso primeiro rei ou das dificuldades reprodutivas do Lince Ibérico, não são assuntos que o magistério da Igreja se pronuncie.

3. Constato, com alguma consternação, que a opção por um estilo bem-humorado provocou alguma incompreensão, que roça o escândalo farisaico quando se interpretam literalmente alegorias que, como é óbvio, não admitem uma tão fundamentalista leitura. Que os tristes do costume me desculpem a boa disposição.

Deveremos também levar o assunto a que se refere com boa disposição e deixar que os outros decidam por nós? Devemos ignorar o que escreve e pensar que tudo não passa de um devaneio mal conseguido? Ou por outro lado deveríamos encarar este assunto com boa disposição mas com a seriedade que lhe é devida? É que eu gostaria muito de ter pessoas a pressionarem os diversos sectores da socieadade para termos um programa da disciplina de educação sexual representativo da morel cristã em que está assente a cultura nacional. Mas com textos como o que escreveu não sei se chegamos lá.

4. Considero que a expressão “educação sexual” é contraditória, na medida em que o que é instintivo não carece de aprendizagem, a não ser que, como muitos temem, a dita “educação” mais não seja do que um instrumento ideológico para impor, sob aparência científica, princípios e práticas contrárias à liberdade e à dignidade humana. Com efeito, o Guia de Educação Sexual da ONU, elaborado pela UNESCO com a colaboração da OMS e dado a conhecer no passado dia 27, recomenda às crianças a partir dos cinco anos a prática do onanismo e a apologia da homossexualidade (UNESCO, International Guidelineson Sexuality Education: An evidence informed approach to effective sex, relationships and HIV/STI education; UN News, 27/08/09; Family Edge, 31/08/09).

O Padre Gonçalo insiste num erro que no parágrafo seguinte tenta dar a volta. Antes demais como sabe de certeza, até os institos se educam, senão o senhor nunca poderia ser celibatário. A sexualidade, o comer,  o dormir, até a própria violência são tudo coisas que ensinamos, aprendemos que no fundo educamos. A diferença entre o homem e o animal é que o homem aprende a educar e a domar os seus instintos. A Igreja educou, à sua maneira, a sexualidade dos seus fieis. Por isso não só é um absurdo dizer que o instintivo não carece de aprendizagem. O que pode estar sujeito a críticas é a forma como querem educar esse instinto, mas o Padre Gonçalo nunca faz referência.

Por fim gostava de esclarecer que nunca a UNESCO recomenda emlado algo a masturbação nem a homosexualidade. O Padre Gonçalo que leia melhor o texto mas reconhecer como algo natural não é o mesmo que recomendar. A UNESCO para além disso reconhece as diferenças culturais e regionais e admite que o que é bom para uns pode não ser bom para outros simplesmente por uma questão moral.

A masturbação pode ser pecado na Igreja Católica ou noutros credos mas existem centenas de milhar de pessoas que não sendo crentes devem ser informadas que a masturbação não acarreta nenhum mal físico ou psicológico. O mesmo se aplica a homosexualidade desde que vivida com responsabilidade, respeitosamente e num contexto não baseado exclusivamente no sexo.

5. Embora entenda que a educação para um saudável e ético exercício da sexualidade é competência prioritária da família, admito que essa formação possa ser ministrada subsidiariamente em instituições educativas, desde que garantida a sua competência pedagógica, a idoneidade moral dos formadores, a objectividade ética e científica dos conteúdos, bem como a liberdade dos alunos e dos seus pais. Esta garantia é um direito salvaguardado pelo art. 43.º da Constituição, o que não significa nada porque a mesma lei fundamental também defende, em teoria, a vida, mas depois permite a impune matança das crianças não nascidas.

E finalmente o Padre Gonçalo dá o dito por não dito. Depois dizer que não há necessidade de educação sexual assume a sua necessidade. E aqui estamos de acordo que é não só é prioritário mas também urgente uma educação para um saudável e ético exercício da sexualidade.

Esta deve ser, também, competência prioritária da família mas a verdade é que vamos precisar de esperar uns tempos visto que em muitíssimas famílias, o sexo é assunto tabu. Ainda bem que admite que essa formação pode ser ministrada subsidiariamente em instituições educativas desde que garantida a sua competência pedagógica senão teríamos que esperar ainda mais tempo.

Por fim e sobre o ponto da idoneidade moral dos formadores, da objectividade ética e científica dos conteúdos, bem como da liberdade dos alunos e dos seus pais, este é o ponto que tem que haver um debate profundo e bem fundamentado. Muito provavelmente não será o seu ponto de vista que ganhará em toda a linha mas se participar no debate de forma respeitosa e bem fundamentada, com certeza que as chances de ter uma educação sexual mais próxima do ideal cristão serão muito maiores.

Agora se insistir em utilizar um deshumor feito de chavões e dogmas, garanto-lhe que os Gatos Fedorento terão mais influência no concepção dos conteúdos da disciplina do que o senhor.

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